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15/08/2008

Décimo quarto

Todas nós, hoje, pertencemos ao décimo quarto andar. Lá embaixo, a parede de mármore decorada com seis grandes e estreitos espelhos. Pelas nossas costas eles refletem as portas daquele elevador antigo e barulhento no qual adentramos com a certeza de ter deixado um último suspiro preso em algum daqueles espelhos. Segundo (quem diabos usa elevador somente para poupar uma subida de um lance de escadas?). Sétimo. Décimo quarto.
O andar carrega por si só um fastio inenarrável. É a certeza do início das dúvidas. A fantasia transformada em boicote às nossas realidades, o gelo na espinha movimentando-se de vértebra em vértebra até quê.
Décimo quarto, anuncia a ascensorista ansiosa por algo ou alguém que a tire daquele buraco feito de madeira e sustentado por fios de metal que, dia após dia, subiam e desciam com suas memórias felizes.
Saímos. Em uma passada discreta e sorrateira descubro que não só entrei por uma porta delicada de vidro, como encontro-me na lúcida sensação de já ter estado aqui.

29/06/2008

Você e Só

Abstrato e sorrateiro, você sofre. Nunca dante atravessado caminho mais longo do que aquele que o leva a si próprio. Não era mais o mundano e o óbvio que o cercavam de um mim cada vez mais distante. Na companhia somente e unicamente de seus pesares, você se vê por fora e envolvido em uma dura capa de cristal; quebrado, trincado, como você já não nega mais o ser também. Seu sexo se desfez e você definitivamente perdeu o rumo de uma cama acalorada balançando-se em uma tentativa irrisória de intimidade consigo mesmo. Você se desligou de sua lúcida resposta a pensamentos corrosivos e diluentes. Não veste-se mais para ninguém. Você já não se importa em cariar os dentes ou cortar os cabelos. Na vida, há momentos em que é preciso parar, mas você não sabe ainda disso, talvez demore para chegar lá. Você sempre quer chegar lá. Ainda não sabe que uma hora é preciso parar. Quem sabe quem pode levar-te em união eterna para qualquer lugar? Você cansa. Só de pensar.

11/06/2008

Lamba seu braço ossudo e descubra que, além de olhos, você também é feito de gostos.

03/05/2008

Contos Múltiplos II - Início - "Pois o contrário de Nada é Nada e assim não se sai do lugar"

Um dia qualquer de um mês não muito preciso. Eis que surgiu do nada. Aparentemente sem nome, admirando-se do que não é seu; construindo palavras e tecendo letras num bom-passar-de-tempo sem que tivéssemos a chance de revelar sua verdadeira face, uma vez oculta. Vem do Latim, por sua vez desvendamos. Mas seguiu-se a névoa por detrás de um nome marcante. Sua marca sempre fora Nihil.
(continua....)

16/04/2008

Contos Múltiplos I - Final 1 - "Da negação"

"Com a arma apontada na cabeça, não sabia o que dizer. Poderia pedir desculpas, mas para quê, talvez fugir, mas como? Pensou em rezar um pai-nosso. Como é que começa o pai-nosso mesmo? Não lembra. Não estou mais esperando pela morte, pensa ele. A morte já chegou. A morte me acompanha desde aquele dia. O coração parar de bater, o cérebro parar de funcionar, são só cerimônias. Estou morto desde aquele dia.

O dia em que a vi cair em meus braços, gelada e linda como nunca antes estivera.
Isolando essa lembrança até parece que fiz parte de uma cena de um filme desses cheios de clichês: "Uma bela mulher cai, nua, nos braços de seu amado. The end."
Mas não, não mesmo. Foi tudo bem pior. Não sei o que fazer. A angústia do fim toma conta de mim nesse momento, porém está sendo difícil acabar comigo mesmo. Sou um covarde, um bosta. Mas nada vai conseguir me fazer continuar aqui. Se ao menos eu soubesse o momento exato de puxar o gatilho...
Não deve haver algum. Estou demorando demais, não deve ser normal. Não vou desistir. Não.
Dramas. Deles, já basta todos os eventos que se sucederam na minha vida. E falando nela, quanta coisa eu poderia ter mudado. Mas não. O passado nos alcança somente pra nos lembrar de que é impossível voltar atrás. E eu mais do que ninguém, sei disso.
Não consigo mais esperar. Não aguento meu próprio cheiro, esse suor mal lavado que escorre na minha testa e quase desliza a arma da minha mão. Nojo de me ver no espelho. Nada mais importa.
Se ao menos ela soubesse como me arrependo."


A multidão se aproxima lentamente ao corpo esticado no carpete. Luzes estão acesas e uma música estranha paira no ar. Expressões de espanto e comoção dos sujeitos no local. No momento, três ou quatro deles lêem o papel rabiscado, deixado sobre a mesa.
Não há mais música."

18/03/2008

Um Rio Sem Pressa

Eram sábias, as duas gurias. De uma forma ou de outra, elas possuíam o básico e até o intermediário. E seguiam. Davam saltos diferentes, pra lados meio opostos (oposição meia tigela) mas que não as impossibilitavam de voar na mesma direção. Momentos. Agora sabiam o valor de todos eles. Todos que passaram até ali. Havia muito mais a descobrir e, isso elas pareciam tirar de letra. Letras. Muitas delas. Um alfabeto construído pra transparecer o que havia de ser dito. Que abandonem os velhos costumes e a acentuação barata. Ali em frente, aos olhos delas, o anseio era sempre mais. Criavam ilusões. Na doçura do encantamento prolongado, elas deslizavam na corda bamba que nunca nos trás um ponto final. Era o início. Transcorrem diálogos na madrugada. Há distância. O zum zum zum praiano ouvido lá, em nada se compara à lúdica calmaria do Guaíba, daqui. E lá foram elas. Saíram pra passear, deram-se as mãos, vem comigo que eu tô contigo, não larguei, não. E foi bom. Compartilharam as vidas no presente. Um passado vivido em tempo cronológico não faz suas cabeças. Aliás, o tempo passa só pra levar as folhas amassadas embora. Reciclaram-nas. Mutantes em busca do movimento colorido, risos e choros e falhas e bons dias as esperavam. Corrida diária em busca. Busca vida. Prazer em conhecer. Ser para aquilo que se nasce. Envolvidas na delícia e no medo da prática dos projetos, seguiam. O trapézio fez o trajeto de volta. Não coube a mim agarrá-lo, mas a ela. Um salto. Voltei. Pé no chão. Visamos o alto de nossas realidades flutuantes. Como espumas. Soubemos as verdades que não foram ditas. Palavras, as letras aqui e novamente. Vozes que se encontraram em rápidos momentos oportunos. Um gole na garrafa errada e uns cigarros consumidos. Voltemos agora ao princípio do envolver-se: deixei de lado velhos papéis. Assumi um inspirado nariz de palhaço. Vermelho e lúcido. Chamei Neruda no cantinho e confessei que mais uma vez, eu vivi.
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15/02/2008

Instantes

Matou a garrafa. Três babados goles e meio metro à frente o separavam dela. O calor latejando em todo o corpo entregava a súbita vontade de possuí-la ali mesmo. Não enxergava a mais ninguém. Secou a barba molhada do whisky vagabundo que acabara de meter pra dentro e partiu. Mais dois passos e ela seria sua. Encarou o marmanjo que a agarrara neste instante e sem pensar duas vezes, caiu de soco em cima do cara. Agora era tarde. Dois dias depois e a pancada na cabeça ainda lhe rendia dores alucinantes. Pensou que diabos, o que é esse lugar e o que faz essa guria aqui ao lado, me encarando? Perdera a chance de saber que, finalmente, ela era sua.

06/02/2008

Soraia

Bueno.
Aproveitando então a boa maré Muni/Cíntia, aí vai a Soraia.
Originalmente publicado em euvoucorrendobuscaragloria.blogspot.com

*

Chama-se Soraia e não tem apego pelo nome. Cultiva uma personalidade volátil com alguns traços de quadradisse plena. Alguns diriam que é difícil catalogá-la no livro "como definir uma pessoa, parte I", porém, outros já a decifraram de cor e salteado. Não é lá muito difícil.
Toda terça feira acorda relativamente tarde e vai jogar na Mega Sena. Sustenta inevitavelmente uma conturbada esperança de vida fácil e de amor livre. Todavia, despenca diversas vezes dos andares mais altos que seu ego consegue alcançar, mas segue com o pó compacto na bolsa para retocar os devidos danos à maquiagem.
Suspira alto ao lado do namorado para demonstrar insatisfação e despeito. Mesmo nada tendo acontecido, sempre algo aconteceu para ela. Ameniza pequenas dores existenciais com sua irritante capacidade de tornar-se insuportável e intolerante, e sabe gabar-se muito bem disso.
Nas quintas feiras, desce os quatro infinitos andares do prédio e compra pão e refrigerante. E cigarros. Não sabe conviver em sociedade sem um maço de cigarros e um copo de bebida na mão esquerda - só consegue fumar com a direita.
Alcança os níveis mais altos de agudisse vocal quando a contrariam, e isso, também faz parte de seus traços pessoais mais marcantes. Pode-se dizer que ela faz questão de deixar rastros por onde passa. Gosta da vida boêmia como poucos, mas não pensa duas vezes quando o sofá azul da sala a convida para uma temporada de televisão e sedentarismo.
Dispensa educação e sutileza ao abrir a boca, seja para elogiar a sua melhor-amiga-que-acabou-de-comprar-aquele-vestido-vermelho-carmim-que-tanto-namorava, seja para despejar em miúdos uma incomodação "extremamente importante." Para ela, lógico.
Chama-se Soraia e poucos sabem disso. Instaurou a ditadura do apelido até a morte. É verdade que apenas uns três ou quatro conhecem-na tão bem quanto eu. Também é fato que ignora o y em seu nome e que decidiu que com i fica mais apresentável, chamá-la de Soraia. Então tá.

23/01/2008

Precisa-se de uma mutação voluntária

De um ano, passaram-se vinte e três dias. Pela primeira vez senti que as horas correm atormentando-me; a cor cinza revela um uivo ventoso incontrolável. As folhas queimadas pelo sol insistem em adentrar o meu quarto. Lá, empoeiram-se pilhas de livros insaciáveis e anseios noturnos descabidos. Talvez seria a hora de providenciar algumas mudanças, quem sabe algo desperta debaixo da cama? Eu, não sei. Diante da perplexidade de um momento como este, silencio as minhas vontades. Já é dia vinte e três e eu ainda não havia notado que as janelas do prédio em frente perderam suas grades de madeira.

22/12/2007

À 2008, as batatas


Que inciemos o ano de 2008 entendendo que algumas verdades ditas por nós, podem mudar. Que nem todas as réguas são estritamente retas. Que o absolutismo e a rigidez exercidas ao longo de um ano em que "temos que ter o total controle sobre todas as situações" não colam mais. Que saibamos administrar no calor do momento e na euforia instantânea os acontecimentos diários. Que nos programemos menos e vivamos mais. Que deixemos de lado a pieguisse que nos circunda e partamos para o novo. Que demos mais o "último respirar, antes do mergulho profundo". Espero que nos envolvamos mais com a nossa própria existência e esqueçamos um pouco os nossos vizinhos.

Que tenhamos de menos, mas que aproveitemos aquilo que perdemos, demais. Que memórias sejam criadas. Que, sem falsas modéstias, aceitemos sorrindo bem bobões àquilo que por ventura cair em nossas mãos e que procuremos menos explicações para o andar da carruagem.


Enfins. Encerro este post em clima de 3, 2, 1, mesmo sabendo que ainda falta uma semana para a virada do ano. O clima quente e o sumiço das pessoas nas cidades já começam em demasia a me colocar diante de um novo ciclo.


E, sabendo que não corro o risco de me tornar repetitiva, desejo um ano de amor e de muitos motivos pra dar risadas. Mesmo os mais incompreendidos. Tendem a ser os melhores...


*


(...)

"E achei que o amor mentia, e que o meu anjo

Era apenas mulher! chorei! deixei-a!

E aqueles, que eu amei co'amor d'amigo,

A sorte, boa ou má, levou-mos longe,

Bem longe quando eu perto os carecia.

Concluí que a amizade era um fantasma,

Na velhice prudente - hábito apenas,

No jovem - doudejar; em mim lembrança;

Lembrança! - porém tal que a não trocara

Pelos gozos da terra, - meus prazeres

Foram só meus amigos, - meus amores

Hão de ser neste mundo eles somente."



Gonçalves Dias


25/10/2007

Um conto mofado* ou Sobraram dedos

A música tocava e ela não sabia dizer o que era. Talvez Jazz, quem sabe um daqueles cd's de relaxamento, não importava. Tudo o que queria era fazer uma pergunta a ele:
- Você acha que sabemos quando vamos morrer?
- O quê?
- É, quero dizer, você já sentiu em algum momento que iria morrer?
- Que pergunta! Claro que não. Se tivesse sentido, estaria morto e não aqui, com você, escutando essa ladainha.
- Pois eu acho que somos capazes de prever, nem que seja por uma fração de segundo, quando vamos morrer. E digo mais, em se tratando de tempo, eu acredito que minha morte pode acontecer a qualquer momento.
- (Ele ri) Você está louca! É melhor parar com esse pó antes que você cheire, se engasgue e morra na minha frente, fazendo com que eu acredite nas suas profecias descabidas!
(E procura ar pra se recompôr das palavras que acabara de ouvir dela.)
- Você está na mesma que eu.
- É, mas não estou sentado em um sofá laranja pregando a minha morte para quem quiser ouvir. Levante-se daí e me ajude a escolher outro som.
- Esse aí.
- Âhn?
- Esse aí que está no chão. O cd com capa colorida que eu te trouxe há séculos.
- Qual? Este aqui?
- É. Não, o do lado.
- Você acredita que as músicas possuem alguma espécie de mensagem oculta por trás daquilo que ouvimos? Jogue o isqueiro, por favor.
- Você diz, uma idéia subliminar?
- Quê?
- Uma mensagem que só pode ser captada se estivermos em um estado alterado de percepção?
- O quê? É, pode ser. Talvez seja isso que eu esteja pensando. Você não acha que... Esquece.
- A nossa morte pode aparecr na nossa frente neste mesmo estado de percepção que eu mencionei. A tal fração prévia de segundo, o momento final que...
- Tá bem, você tem razão. Agora me diga, o que você preferiria nesse momento: saber quando e como vai morrer ou descobrir o significado oculto por trás de uma música que esteja ouvindo?
- (Ela ri) Como se uma anulasse a importância da outra. Morte e Música, ambas começam com M e ambas nos fazem delirar sobre seus propósitos. Louco, não?
- Hmmm...
- Ah, esquece. Preciso de mais pó. Você tem?
- Aqui.
- Será que vão sentir a minha falta quando eu morrer?
- Eu vou. Mas acho que se começarmos a contar as pessoas, sobrarão dedos.
(Os dois desabam no tapete peludo no canto do quarto.)
- Tá ouvindo?
- O quê?
- Nada. Achei que tinha escutado o John dizer "Yes, he's dead" no final da música.
- Não é agora que começa o Revolver?
- Acho que é.
- Faz sentido.
- O quê?
- Garanto que para ele faltariam dedos.
- Quais dedos?
- Esquece.



*como os morangos, de Caio F.