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07/05/2008

Contos Multiplos I - Final 3

"Com a arma apontada na cabeça, não sabia o que dizer. Poderia pedir desculpas, mas para quê, talvez fugir, mas como? Pensou em rezar um pai-nosso. Como é que começa o pai-nosso mesmo? Não lembra. Não estou mais esperando pela morte, pensa ele. A morte já chegou. A morte me acompanha desde aquele dia. O coração parar de bater, o cérebro parar de funcionar, são só cerimônias. Estou morto desde aquele dia."

Apesar de se sentir morto, vazio, esse rito de morte não estava acompanhado de alívio, mas de uma outra sensação: o medo. Enquanto pensava em como agir, seu corpo, tomado pelo desespero, começava amolecer. Por mais que percebesse o resto de vida se esvaindo por seus poros e que soubesse que nada disso importava e que até merecia o cano gelado em sua fronte, procurava um grão de esperança. Antes que o encontrasse e que verbalizasse a idéia que lhe surgira naquele segundo, sentiu um estouro e sua cabeça encontrou o chão molhado e frio do banheiro.

23/03/2008

Nada

Seus olhos brilhavam com a angústia opaca de quem não sabe mais como continuar. Naquele momento de dor, de desespero e de imaginação o grito soava silencioso e desnecessário. Já não importavam os ideais e todo o conhecimento adquirido pela leitura de milhares de páginas secas e repetitivas. O que procurava... a liberdade estava ali e tão subitamente aparecera... ela sabia que não duraria. O calor... não importava. Mathieu a descobrira morrendo em uma guerra inútil e sem sentido, a Segunda. Ela acabara de descobri-la em sua própria guerra, em seu momento final de calor e vazio. Tudo estava claro e não era somente a luz do fogo, era a lucidez, a resposta que buscara. Ser livre é estar vazia, com nada mais a encontrar. Agora, com os cabelos chamuscados, ela tinha a resposta e batera de frente com a liberdade. Em instantes, porém, as chamas não permitiriam que a mensagem se propagasse.

26/11/2007

Alice e a Flor

Deitada sobre a grama verde e molhada, Alice respira com força. Às vezes ela faz isso para sentir seus pulmões inchando e ter certeza que ainda tem algum controle sobre seu corpo. Ela se vira de bruços e gruda o nariz na grama, gosta do cheiro de terra molhada, confere-lhe uma sensação de liberdade. De repente, como se tivesse levado um susto, Alice se senta e começa a encarar uma flor. Vermelha, suculenta, mas sem cheiro... "Como é linda!" Pensou amargurada. Alice olha para a grama e sorri. É um sorriso de compaixão. Com um movimento rápido, Alice arranca, amassa, joga a flor no chão e sai correndo. Ainda dá pra ouvir ela gritando: "Bem feito!".

31/10/2007

Sentido

O calor de minha respiração contrastando com o frio que a chuva promove lá fora. Essa mistura embaça as vidraças e eu tento passar o tempo escrevendo palavras soltas com a ponta do dedo. Não adianta, por mais que eu tente esquecer aquele lugar não sai de mim. Aquele lugar que teima em aparecer nos meus sonhos e que, em momentos de vigília, atormenta meus pensamentos. Por que algo pode me deixar tão feliz quando estou ausente de mim e tão machucado quando consciente? Acabo de perceber que as palavras que escrevo são de um sistema que eu não conheço, mas eu sei que elas têm significado, pois pra mim elas fazem tanto sentido, um sentido tão louco, que eu poderia adaptá-las à minha necessidade. Só que elas machucam, elas incomodam, elas lembram o lugar que eu queria estar e que eu não sei onde está, nem mesmo como é. Conheço apenas a sensação de dormitar entre nuvens e ondas e fogo, um desejo imenso que aquele lugar tem. Queria viver lá, mas não acho. De noite, sem abrir os olhos, tento tatear em busca de alguma pista que me faça reconhecê-lo quando acordado. Para que, quando eu passe caminhando por lá, eu saiba que é o que procuro. Entretanto, de manhã, já não lembro as pistas que criei, sobra-me apenas a sensação, e eu sei que ela não é igual durante o dia, não adianta procurar.

*olá, velhinho!