"Com a arma apontada na cabeça, não sabia o que dizer. Poderia pedir desculpas, mas para quê, talvez fugir, mas como? Pensou em rezar um pai-nosso. Como é que começa o pai-nosso mesmo? Não lembra. Não estou mais esperando pela morte, pensa ele. A morte já chegou. A morte me acompanha desde aquele dia. O coração parar de bater, o cérebro parar de funcionar, são só cerimônias. Estou morto desde aquele dia.
Toda a merda que veio ou possa vir depois não vai alterar nada em nada. Estou morto desde o começo, desde o nascimento. Todos estão, mas poucos sabem. A verdadeira morte é viver assim. Minhas culpas, fugas e rezas são inúteis. Estou apertando o gatilho. "
28/04/2008
Contos Múltiplos I - Final 2
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14/03/2008
Manifesto pé no chão
Todos vêem, mas viram a cara. Todos sentem o fedor, mas torcem o nariz. Sem filosofias baratas, mas o ser humano é o maior dos fingidores. Chega de falsos elogios, de mentiras simpáticas, de sabidões, de esperança. Sim. Esperança é droga, é fuga, é abstração. Nesse caminho finito até a morte temos esperança de que tudo vai melhorar, de que seremos alguém, de muito mais. A verdade não é nua e crua, é só a verdade. Quero pé no chão. Quero a verdade à marteladas. É hora de mandar tudo à merda. De ser sincero. De parar de sonhar. De mandar os sabidões para a puta-que-os-pariu. De dividir. De tentar até morrer. De não pecar por omissão. De entender que a simplicidade é o maior dos luxos. De parar de virar a cara. De parar de torcer o nariz. De despir a prepotência e a arrogância. De mandar os posudos ao caralho. De perceber que somos um conjunto e não um. De nos preocuparmos realmente com os outros. De ver que tem gente comendo lixo enquanto olhamos cardápios. De acabar com teorias e discussões que só nos levam ao sono. De pôr o pé no chão e viver.
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13/12/2007
Estrelas
Mais dois passos. O vento nem estava tão frio. Ele notou que as estrelas refletiam na água. Achou que isso era meloso demais para o momento.Resolveu tomar mais um gole da garrafa de vodka, depois do gole um cigarro. Eram só dois passos. Talvez aquele tenha sido o melhor cigarro da sua vida.Largou a garrafa e, ao lado, os cigarros e o isqueiro. Deu os dois passos e se jogou da ponte.
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07/11/2007
O Preferido
Tinha que matá-lo. Todos os filhos-da-puta que passavam por aqui preferiam ele. Olhavam pra ele. Sentiam pena dele. Davam comida pra ele. Até mesmo sorriam para ele. Quando passavam por mim torciam o nariz. Parecia que estavam sentindo cheiro de bosta. Nem olhavam. Comida nem pensar. Só um dos dois poderia continuar. Por isso tinha que matá-lo.
Juro que não o odiava tanto quanto as pessoas que passavam. Os homens de terno. Falando difícil, pelo menos pra mim era difícil. Barbeados, cabelinho lambido. Jeito de quem engana todo mundo. Tinham cara de quem acabaria deputado. As mulheres sempre de salto. Roupinha combinando.Narizinho empinado. No fundo, eram todas putas. Mas já que eu não poderia matar os homens e as mulhres eu tinha que matar ele. E eu já estava cansado. Não aguentava mais roubar seus restos, quando havia restos. Eu não queria ficar abaixo dele. Queria que as pessoas me ajudassem em vez dele, que me olhassem como olhavam pra ele, só isso estava bom.Então matei. Foi numa noite de inverno. Eu estava passando um puta frio. Foi com uma pedra. Ele estava dormindo. Acho que nem sentiu. Ainda lembro daquele sangue gosmento escorrendo. Agora não tem mais cachorro nenhum, só eu.
*As críticas serão bem aceitas.
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