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03/08/2008

Rotina variável

Ela não sente as coisas. Não só coisas, mas objetos muito especiais, como água ou pessoas. Neste momento, ela não sente que as milhares de gotas que caem do chuveiro a banham com profundidade especial nos ombros e costas, e é exatamente isso que a faz abrir um leve sorriso e sentir um curto arrepio. Mas, como ela só acredita no que vê, nem vai notar a discreta bolha que se formará em breve sobre o sabonete, que ficará solitário entre água e perfume, e isso faria toda a diferença.

Tanto é assim que ela tampouco sente a roupa que veste, o desodorante e o perfume, a maquiagem. Não sentiria nem que batessem em seu rosto – nunca bateram. A sensação do cheiro do café não durou três segundos e agora ela reclama mentalmente que vai ter de correr para dar tempo de escovar os dentes, estender a cama, arrumar a bolsa e a infinidade que inventa. Na verdade, ela não sente, mas enquanto corre deixa para trás um ar inconfundível de certeira segurança, tal que a deixaria menos insegura, mas ela não vê, afinal.

Vai chegar a tempo de subir no próximo ônibus, na parada, e na espera não vai sentir nem cheiro nem pena dos animais abandonados, é mesmo pena, mas nem falta de sua família e nem saudade dos amigos vai ter, por que não os tem, não os sente.

A única coisa que ela sente é a falta de sentir, pois tem consciência de que não sentir é terrível, simplesmente terrível. E é simples, simplesmente assim que não sente: automática, trabalhará e atenderá a todos os clientes, começará pensando em nada no almoço, atravessará a tarde pensando em tudo o que podia fazer e não faz nada, vai voltar para casa inevitavelmente a mesma e refletir que as pessoas, todas elas, em absoluto, ficam mortas de segunda a sexta esperando o “final-de-semana” chegar para ressuscitar e aproveitar ao máximo a vida (mas só nos sábados e domingos, pois são os dias em que não trabalham, e, claramente, somente nesses se pode ser feliz e completo e alegre para sempre, nem sabendo que o final-de-semana de verdade é sexta e sábado, é triste ninguém saber que o domingo é o primeiro dia da semana, bela e viva semana) – inclusive ela.

Lá se ia, junto dos dias mal contados e mal quistos, seu brilho e sua concentração humana, tão importantes como ferramenta de controle para a máquina da rotina, do sub-desespero. Faltava nada, quase nada para viver perfeitamente como se deve, pensava, apenas o toque, a mão, o ato, o abstrato. Para esclarecer, nela existia uma vontade tão imensa de agradecer a alguém - não sabia bem a quem – que parecia até sentir nesse momento, sim, até sentia: era apenas impotência e inferioridade.

No calendário, a data marca o dia do medo: é hoje. Ela percebe, então, que a porta de seu quarto está entreaberta, até havia sentido algo atravessando a sala atrás de si, mas como não viu... vai até o quarto, escuro, clica. A luz, que acende aos poucos, fica gradativamente mais forte, forte, mais forte, até que transforma tudo num branco irreversível e claríssimo. Brilhante.


Clara acorda sobre sua cama na manhã seguinte, sentindo tudo e enxergando quase.

15/06/2008

Dos chãos


Eu a pintaria de preto-e-branco se fosse um meio-fio. Não enfeitaria com canteiros, nem folhas e placas. Mostraria outros chãos mais asfaltados por onde passar, desviando daqueles projetos de buraco que tanto a incomodavam quando eu acreditava que estávamos juntos, e seria exatamente assim que ela correria o risco de se aventurar por um mercado que não é só seu. Talvez colhesse algumas picadas pelo caminho, algumas sangrariam muito, outras simplesmente não.

Seria das definições apenas uma pro vazio em que você se encontra, e eu sei que se encontra. Finge que não, mas sente que talvez, sim, com certeza, sim, nessa forma de não sentir as coisas, nem os passos, nem os semáforos. Muito menos os sinais vermelhos, antigamente apodrecidos no reflexo dos seus olhos. Você não se enxerga. E o pior mesmo é não se enxergar nem no espelho do seu quarto, na imagem sombreada do monitor, na taça do restaurante de Berlim, São Paulo ou da esquina. Tenta – sempre tenta num desconforto que dá pena, ou melhor, não dá, porque, em definitivo, não merece tantos alertas.

Eu não deixaria que a trafegassem, nem que a asfaltassem se não o fosse. Permaneceria sem saída, como sempre fora. Mais uma rua, um chão, só. Não consertaria as imperfeições. Saberia que nunca, ninguém, com dinheiro ou vontade, conseguiria consertá-la. Não haveria um jeito. Como uma velha velhinha de aniversário de quem não teve como conseguir outra: teimosa; e a lágrima no olho que escorre por, pelo menos, tê-la, e poder cantar parabéns, então.
Não há diversões para esse caminho. Nem soluções. Fuja, como eu.

28/05/2008

Contos Múltiplos III - Início - Motivo

- Eu tenho medo de ficar cego.

- Eu também.

- Não, eu falo sério.

- Você não tem motivos pra isso.

- Pra falar sério? Escuta aqui Luísa, quantas vezes eu já te disse...

- Não tem motivos pra ficar cego, Alan. Quantas vezes EU já te disse pra escutar o que eu falo até o final? Depois você fica aí, chorando a...

- Ta, ta, chega. É só que eu tenho medo de ficar cego.

- Mas você não tem motivos para isso!

- E que motivos teria eu pra te contar sempre a verdade?



[continua, acredito]

03/05/2008

Contos Múltiplos II - Final 1 - "derramandoosanguedosegredo.com"

Um dia qualquer de um mês não muito preciso. Eis que surgiu do nada. Aparentemente sem nome, admirando-se do que não é seu; construindo palavras e tecendo letras num bom-passar-de-tempo sem que tivéssemos a chance de revelar sua verdadeira face, uma vez oculta. Vem do Latim, por sua vez desvendamos. Mas seguiu-se a névoa por detrás de um nome marcante. Sua marca sempre fora Nihil.

Não que gostasse daquilo tudo; não - It was like a joke. O dinheiro não era necessariamente atrativo, nem os contatos, nem o perigo: era o glamour que seduzia loucamente aquele corpo sem gosto, sem dono, sem cheiro, de Nihil. Sim, o glamour. Agora estava irreversivelmente empenhado em fazer mais pela família que o acolhera naquela tarde chuvosa, na estrada sem destino. E por si mesmo também.


O grupo tinha história. E nome. Claro, ele não o revelaria, nem o seu verdadeiro quis dizer e-nem-pista-por-favor-não-me-pergunte. Só queria fazer o melhor por seu trabalho, pela tradição sem precedentes, por tudo de mais abstrato que os cercava. Buscar por páginas que mostrassem o que de mais incomum havia no pensamento alheio – e nas manias, convicções, extremismos – era a vida de Nihil. Quer dizer, primeiro era isso, depois se perder mil vezes num emaranhado de não-dizeres para transformar em muros por onde pudesse escalar e ainda sobreviver do outro lado. Podia não parecer, mas era um árduo trabalho.


E muitas vezes dava certo. As vítimas acabavam por entregar identidades para lá do propícias pro seu objetivo: perfeitas. Não era fácil encontrá-las, as que conseguia, depois de todo o processo, iam para a próxima fase, onde o elemento superior as cuidava. As outras, ah, as outras... Nihil as comia. E bem. Com garfo e faca e molho Sakura, por favor.

31/03/2008

Tudo o que não foi dito de Paris

Eu tento te contar isso desde que ficamos juntos aquela noite, em qualquer beco semidecadente de Paris. Claro, por que já foi dito tanta mas tanta coisa que todos já sabem que lá não é uma festa constante, nem centenas de lojas enfileiradas com os menos frascos, os maiores cheiros, nomes e multicores, muito menos Torre Eiffel por todos os lados. Talvez falem muito, mas dizem pouco – dizem pouco de nós dois.
Não era a nossa primeira viagem, muito menos a primeira vez que eu tentava te dizer algo e não conseguia. Há uns tantos anos, aquilo poderia significar a solidez da nossa cumplicidade e felicidade – mas naquelas semanas e, principalmente naquela noite, era no máximo fuga de tempos frágeis. E chegou até a ser divertido tentar te contar uma, duas, três, quatro vezes o que eu presenciei no verão que acabara de passar aqui, no Brasil. Nos cafés, naquele restaurante que conhecemos ao chegar e que só com nossa refeição financiaria uns bons gastos de uma instituição infantil, e até em meio nossas profundas carícias da noite do beco. Divertido, mas inútil.
Eu tentei te relatar o que aconteceu comigo, o que eu vi e o que nunca mais saiu da minha cabeça naquele bar do Museu, também. Eu tentei. Mas você queria ver a Monalisa, a pirâmide, e tirar foto de mais uns pra lá de cem artistas que eu não fazia a mínima. E então eu te segui, sim, por que no final era o que eu sempre fazia.
Foi aí que tive a divina paciência de deixar você observar todos os ângulos de todas as obras, as relíquias, a arquitetura, os interiores, os exteriores, os tetos, tudo. É, e você provavelmente nem teve tempo de absorver todos os fatos que te foram jogados por mim, naquele corredor tão vazio – Você nunca me escuta. Fica quieto, eu não to perguntando. Não vou perguntar se você não vai responder. Você não vai ouvir minha voz e nenhuma outra nunca mais. Não grita! Não quero mais te contar o que eu vi ou o que eu deixei de ver, não quero nem vou. Não grita, eu já disse. As orelhas que eu vou cortar agora são as suas, mas são as minhas também – quieeeeeto! – mando depois pelo correio.

Tudo o que não foi dito de Paris, em Paris, para Paris (para Páris) eu te conto agora, bem. Num daqueles dias em que você não quis ir à praia – já mal lembro dos que chegou a ir – fiquei totalmente sozinha, a areia quase deserta. O que não durou muito, chegaram três garotas bastante jovens, provavelmente irmãs.
Jogaram os chinelos na areia, próximos à beira-mar... e entraram na água. Os biquínis coloridos, os cabelos muito soltos num vento incomum de fevereiro... a primeira mergulhou de leve a ponta dos dedos e levou ao rosto: sinal-da-cruz. A segunda, à esquerda, o mesmo. Dois passos à frente, a terceira repetia a proteção dos mares. Como passar diante da capela da cidadela e não se benzer, não é, querido? Sim, era Deus ali. Era mais: fé. Fé. Fé que eu compreendi como minha, como nossa. Nosso amor tinha acabado, Fernando.
Foi desde que voltei pra casa nesse dia em Florianópolis que eu tento te contar, conversar de verdade. Ali, tínhamos acabado. Você não quis escutar.
Aqui vão tuas orelhas. E nada mais será dito.

29/02/2008

"104 que Contam"

Caros colegas enfinistas – e possíveis leitorinhos também!


Tenho o prazer e a enorme alegria em comunicar que Cíntia (mais conhecida como Cintilante) e eu (mais conhecida como muni) fomos duas das 104 felizes pessoas selecionadas para publicar seus contos em “104 que Contam”, antologia organizada por nosso querido professor Charles Kiefer. E o que mais? Estamos nas nuvens – quase que literalmente.

Gostaríamos de dividir este momento com vocês, pois é algo muito especial para nós, que escrevemos os textos selecionados; Um texto não se faz só com as idéias, experiências, leituras de um autor – mas com as idéias, experiências, leituras e tudo que vier de bom dos textos de outros autores. Daqueles autores que a gente lê com freqüência, dos que dormem ao nosso lado, na cabeceira, dos que fazem os tão queridos blogs, colunas de jornais, revistas e tudo o mais.
É importantíssimo, aliás, com este livro, ter a prova viva de que ainda há espaço para a boa leitura e para o bom mercado em nossa sociedade. Não só há como é grande: talvez as pessoas que se escondam. Ainda temos gente interessada em coisas que não sejam e-mails PowerPoint com “mensagens positivas” e livros que prometem a droga do auto-conhecimento. Que se dane.

E já que é com uma verdadeira família que se constrói ou se começa a construir uma possível carreira literária, é agradecendo que devemos anunciar esta novidade tão querida: agradecendo todos os que fazem parte de um processo que começa com um pensamento que às vezes parece bobo, que passa por dezenas de revisões e termina nas mãos ou nas telas de várias e várias pessoas.
Esse é o nosso começo. Pode parecer humilde para alguns, razoável para outros, mas que é realmente grandioso para nós.

03/02/2008

É por que é segunda-feira


Terça. Quarta-feira. Quinta. Sexta, sábado, domingo.
É por que ta quente. Por que ta frio. É a chuva. O mormaço.

É que já é final de ano. É que você está cansado, não consegue mais se concentrar nas coisas, é que você ta ficando velho e, afinal, é fim-de-ano. Sim, você carrega tanto mas tanto tempo nessas suas costas macias, antes tão mais macias e agora. É que é Reveillon, e talvez você nem saiba como se escreva, é a fome, é a evasão dos seus estudos, manias, paixões. E agora você ta chorando, e é por que a vida é assim pra quem não tem nada, nem um tostão na alma, nem no coração nem mesmo no bolso. É assim. E também, é claro, por que não pára de nevar há cinco semanas e lá fora ta um frio de arder. Sua pele está ficando ressequida, e é por causa da baixa.

É que você está com muito muito muito sono, seus olhos não são mais olhos numa hora dessas, mas só dois gritos de desespero por um descanso que não vem. Suas pernas ficam bambas por alguns vários minutos, e nesses vários você não consegue controlar nada, e tudo por que o ar-condicionado está estragado. E não tem café. E seu inferno astral se aproxima, por que saturno não está na casa do caralho ou sei lá cacildas onde era pra estar.

Ta frio, mas é verão. É o aquecimento global, agora só pode ser. E a minha pressão vai cair depois do almoço – propositalmente. E eu to tão cansada...
É por que o ano mal-começou.

A Macunaíma, um abraço.

09/12/2007

Sonho Hipócrita


O sonho de toda mulher é ter filhos. Quem disse? Quem generalizou a questão a tal ponto? A mulher, desde os primórdios de sua existência, sempre esteve na condição de mãe, de poder gerar outro ser, assim como o homem sempre esteve na condição de "ajudar" decisivamente a mulher nesta tarefa. Agora, passar de condição à afirmação categórica sobre os objetivos femininos, isso é forte.


A legalização do aborto também é algo forte. E importante. A população geral não vê pontos positivos nesta discussão sobre vida e morte, sonhos e riscos, querer e poder. Só vêem o feto - muitas vezes nem formado ainda - que não virá ao mundo, no "assassinato" de uma pessoa, sem falar na banalização que seria "legalizar a morte". Bobagem. Há coisas bem mais importantes a se questionar - não ter planejado a criança, não ter estrutura para recebê-la e criá-la, estar em um momento impróprio para ter um filho, não gostar de bebês, ou até questões mais sérias, como ser estuprada e nem imaginar como seria parir um ser daqueles (naquelas condições).


Os lados da moeda existem e, felizmente, cada vez mais mulheres - e também homens - defendem a idéia da escolha, da liberdade, da autonomia. Um filho pode ser (como tantas vezes é) um plano, um sonho para o futuro. Mas e se o futuro vira presente e os planos de agora são substituídos por uma criança indesejada? A mulher não é realmente obrigada a dar continuidade a algo que não deseja; é assim em tantos momentos de sua vida, não há argumentos suficientes paa ser assim neste ponto.


Resta o governo atual (ou o próximo, ou o próximo, ou o próximo ainda...) acabar com as frustradas discussões alheias de uma vez e decidir se a legalização sai ou não sai para o Brasil. Muita filosofia já cercou toda essa polêmica, muita besteira já foi falada, chega. Já é hora de acabar com os riscos que mulheres sem condições de ir em clínicas boas sofrem ao querer parar sua gravidez. Não é o sonho de toda mulher ter filhos, principalmente quando a transformação interior não é para o bem. Chega de hipocrisia.

02/11/2007

Ponto-final da Vida*



Todos deveriam usar o magnífico ponto-final. Todos. Ele é uma espécie de herói não-reconhecido, uma velha personagem clichê de um conto frustrado. Não se dá importância a ele, mas ele está sempre lá, aguardando para salvar as estruturas mal-feitas e as idéias mal-formuladas.
De maneira geral, as pessoas não se suportam, atualmente; basta notar que a maioria delas utiliza fones de ouvido em seu percurso casa-universidade, universidade-trabalho, enfim. E tudo isso, todo esse problema de socialização, ocorre por que não se usa tanto o recurso do ponto-final quanto deveria. Passa-se *horas* tentando dizer algo que, com o poderoso ponto, diria-se em minutos, assim, resumidamente. Ele nos diz em uma frase o que diríamos em parágrafos. Em pelo menos três deles.

Nos textos escritos, a falta do ponto-final causa problemas seríssimos de incompreensão no leitor. Histórias que são escritas em quatro ou cinco parágrafos e que se dá para contar nos dedos de uma mão os pontos bem utilizados. E como o leitor fica? Não fica. Não entende. Ou melhor: esquece o texto em dois tempos.

Nos textos falados, a situação pode piorar. As mais diversas brigas e discussões poderiam ser evitadas se tivesse-se um ponto de referência geral – o ponto-final da vida. Diga o que você quiser realmente dizer em uma frase apenas [ponto]. Não enrole [ponto]. Não subestime a atenção alheia, seu namorado vai compreender sua fala de três palavras [ponto]. Ponto pra vida! “Dois pontos”.

Então, que se dê a atenção merecida aos pontos-finais das frases da vida. Talvez o ponto não seja necessariamente um final, mas sim o início de uma fase menos subjetiva e impessoal. Nos textos e relacionamentos, pontos. Ponto.

*mais um texto escrito para mais uma aula, mais uma vez