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12/08/2008

Mesmices

O mesmo sol nasce naquela mesma cidade. Os pássaros cantam o que parece ser a mesma canção, e eu acordo, na mesma cama, no mesmo lugar, na mesma condição. Nada mudou, a não ser a cabeça, que parece doer um pouco mais, e o coração, que parece bater um pouco menos.

Visto as mesmas roupas, calço os mesmos tênis, saio de casa e vou para o mesmo lugar de sempre. O mesmo sol que acordou comigo agora está se pondo, logo depois daquele mesmo lago (será mesmo um rio? não há com quem discutir) que eu não me canso de olhar.

O Centro da cidade, que só pára quando a lua se acomoda lá em cima, continua agitado, como sempre. Entre as mesmas pessoas que caminham para o mesmo lugar, caminho ao mesmo ponto de ônibus, para voltar ao mesmo lugar de antes, onde escrevo mais uma insignificância qualquer, e vou dormir.

Em slow motion, o pensamento não acompanhava o olhar.

21/07/2008

Mãos dadas

Caminhava despretensiosamente, como sempre fazia. Passava por um bairro perigoso da cidade, mas não que corresse risco de ser assaltado, aliás, talvez tivesse sido melhor se fosse assaltado, ao invés do que acontecerá em alguns instantes. Ela morava a uma quadra dali, mas quase não saía de casa. Enquanto caminhava - sempre olhando para os pés - procurou algumas imagens daquela época (não muito remota) e por um momento se arrependeu de não ter aproveitado tudo o que deveria. Dois segundos depois, assoviou qualquer coisa dos Beatles e desviou a atenção do próprio andar pra ver se algum carro cruzava o seu futuro caminho.

Quando voltou a olhar pra frente - para logo depois retornar sua atenção aos próprios pés - lembrou-se de quando já fez esse mesmo trajeto tantas outras vezes acompanhado dela, e refletiu sobre o quanto mais feliz a gente fica ao andar de mãos dadas com quem se ama. Infelizmente, essa inútil reflexão que teria o potencial de ocupar uma tarde nos seus pensamentos não durou nem o tempo de alterar o maior dos ponteiros do relógio, pois ao olhar o rosto da menina que formava o casal à sua frente, do outro lado da rua, percebeu que ela era a mesma que há algum tempo atrás formava outro casal com outra pessoa, e que, se ainda não ficou explícito neste conto, essa pessoa a quem nos referimos era o nosso protagonista. Num curto espaço de tempo, pensou em sair correndo, em fingir amarrar os cadarços dos tênis, ou em colocar suas duas semanas no curso de teatro em prática, fingindo não conhecê-la. Ela sorriu ao vê-lo. Ele sorriu de volta. E agora não tinha mais escolha. Quando o sinal fechou para ambos, ele atravessou a rua, acenou e deixou escapar um sorriso. Ela sorriu mais uma vez, mas o puxou pelo braço quando viu que ele tentava escapar daquele reencontro inusitado.

- E aí, guri?
- Oi... Nossa, quanto tempo.
- Bah, como tu tá?
- Ah, tô aí... - não sabia se dizia que não fazia a menor idéia de como estava, e de que aquilo era extremamente absurdo, mas acabou por não dizer nada. Como sempre fazia.
- Ah, esse aqui é o Antônio.

Antônio nitidamente apertou a mão dela com mais força quando o cumprimentou, e por ser mais alto, demonstrava uma inevitável superioridade que deixava nosso personagem principal sem saída, como se fosse possível pensar em alguma naquele instante. Estava de cara fechada, e improvisava um olhar ameaçador que só não fez nosso protagonista esboçar uma risada, pois este já havia voltado a atenção para ela, numa tentativa desesperada de qualquer coisa que o tirasse daquela situação desconcertante:

- Bem... Eu vou indo, não posso chegar tarde em casa.
- Ok. Se cuida, tá? Qualquer dia a gente se fala. - a mão dela já apresentava certa vermelhidão naquele momento.

O sinal abrira novamente. Seguiram seus caminhos, um vindo de onde o outro voltava. Ela, de mãos dadas, ainda sorrindo, olhou para trás para um último aceno, mas ele já não estava mais ali. Não sabia onde estava naquele momento, mas sabia que não era agradável. Seguiu olhando para seus pés, agora mais rápido, pois era o melhor que tinha a fazer de qualquer jeito. Como sempre fazia. A propósito, também se lembrou de como ela não gostava que lhe apertassem a mão com força.

23/06/2008

1


Sem desembaraço

A moça observa a lua

E diminui o passo

16/06/2008

Contos Múltiplos III - Final 1

- Eu tenho medo de ficar cego.

- Eu também.

- Não, eu falo sério.

- Você não tem motivos pra isso.

- Pra falar sério? Escuta aqui Luísa, quantas vezes eu já te disse...

- Não tem motivos pra ficar cego, Alan. Quantas vezes EU já te disse pra escutar o que eu
falo até o final? Depois você fica aí, chorando a...

- Ta, ta, chega. É só que eu tenho medo de ficar cego.

- Mas você não tem motivos para isso!

- E que motivos teria eu pra te contar sempre a verdade?

- Não é essa a questão, Alan. O problema é que...

- O problema é que você nunca deu importância pros meus problemas, Luísa.

- Então me conta, de onde surgiu essa idéia de ficar cego?

- Não é de ficar cego, é de ter medo de ficar cego.

- Eu tenho medo de ficar grávida.

- Não desvirtua, Luísa!

- Não, eu falo sério.

- Você não tem motivos pra isso.

- ...Pensando bem, é verdade. Não tenho motivos pra isso.

- ...

- ...

- Você está grávida, Luísa?

- E você está cego, Alan.

13/05/2008

Contos Múltiplos II - Final 2

Um dia qualquer de um mês não muito preciso. Eis que surgiu do nada. Aparentemente sem nome, admirando-se do que não é seu; construindo palavras e tecendo letras num bom-passar-de-tempo sem que tivéssemos a chance de revelar sua verdadeira face, uma vez oculta. Vem do Latim, por sua vez desvendamos. Mas seguiu-se a névoa por detrás de um nome marcante. Sua marca sempre fora Nihil.

Mas por quê aparecera? De onde? Para quê? Nas sombras da rede, sua identidade é preservada. Mas sabemos que haverá o dia em que a névoa desaparecerá e veremos o essencial. Veremos o remorso, a saudade, o amor, veremos a verdade. Descobriremos a razão de sua existência, o motivo de sua permanência; que outras palavras escreve em outros recintos, que outros pensamentos ocupam sua mente.

(Talvez até vejamos, através da penumbra, traços femininos de um rosto fino bem marcado por um par de óculos, com uma tímida e desajeitada franja caindo sobre a testa. Ou talvez consigamos perceber a textura da barba por fazer, que disfarça o queixo redondo e dá um ar de maturidade. Ou até mesmo o seu cabelo grisalho-quase-branco, muito comprido, cobrindo toda sua coluna e realçando seu rosto delicado, apesar de enrugado e cansado da vida. Com algum esforço talvez possamos ver a aba do boné virado para trás, e um rosto infantil e belo e povoado por algumas sardas solitárias.)

O prazer do mistério, por enquanto, agrada a ambos os lados. Mas ainda esperamos pelo dia qualquer de um mês não muito preciso, quando a névoa já não estará tão espessa e seu nome marcante será apenas um nome.

16/04/2008

Contos múltiplos I - Início

Um começo, quantos finais? Nas próximas semanas, meus companheiros de blog terão que terminar esta história:


"Com a arma apontada na cabeça, não sabia o que dizer. Poderia pedir desculpas, mas para quê, talvez fugir, mas como? Pensou em rezar um pai-nosso. Como é que começa o pai-nosso mesmo? Não lembra. Não estou mais esperando pela morte, pensa ele. A morte já chegou. A morte me acompanha desde aquele dia. O coração parar de bater, o cérebro parar de funcionar, são só cerimônias. Estou morto desde aquele dia."


Preparar...apontar...

07/04/2008

Novo documento em branco

Procurava trilha sonora para o momento de solidão ideal. É importante construir esse cenário propositalmente triste, obviamente melancólico para escrever um bom texto, dizia ele para si mesmo entre goles de uísque barato, observando o movimento dos carros através da janela do sétimo andar. Gostava de escrever em 3ª pessoa. Deixou apenas a lâmpada do abajur acesa, próximo à escrivaninha, onde mantinha seu caderno com poucas linhas escritas aberto. A vida já não valia mais nada. Na estante ao lado, discos do Joy Division, Smiths, The Cure, Bauhaus. A vida realmente não valia mais nada. Ao invés de pôr um disco na vitrola, liga o rádio. A imprevisibilidade sempre lhe atraiu mais. Em uma determinada estação, o locutor anuncia "Jump", do Van Halen. As primeiras notas são suficientes para o escritor fazer uma varredura completa de toda sua vida. Trilha sonora muito propícia. Tão propícia que

01/03/2008

A Trágica e Estúpida História de Nicolau Tristeza Neto

Nicolau Tristeza Neto nunca planejara algo na sua vida com tanto esmero como a sua própria morte. Seu avô, Nicolau Tristeza, suicidou aos 18 anos, com um rádio na banheira e um filho na escola. Pelo menos, era essa a história que ele conhecia. Seu pai decidiu homenageá-lo pondo o seu nome no filho, sem imaginar o carma que havia acabado de se impor, naquele instante do nascimento do menino.

Nicolau sofria com sua aparência. Não contente em dar a ele os piores colegas de turma que ele poderia imaginar, o destino também pregou outras peças em Nicolau. Até os treze anos, Nico (ele preferia ser chamado assim, e se não fosse a chamada do colégio, seus pervertidos "amigos" não saberiam as infindáveis rimas que o nome dele possibilitaria nos oito anos seguintes) era estrábico. Aos nove anos, engordara muito. Era motivo de chacota quando criança.

Anos depois, Nico se tornara um adolescente traumatizado, transtornado e com sérias tendências depressivas. Fisicamente havia mudado, e mudado muito. Emagrecera, não era mais estrábico, e até poderíamos dizer que se tornou um jovem muito bonito. Porém, era introvertido e conversava pouco, apesar de também não se poder dizer que não era simpático. Mais de uma vez desceu do ônibus que ia em direção ao colégio para verificar se havia mesmo trancado a casa, ou desligado o gás. Talvez por ter pouquíssimos amigos e nenhuma namorada, era muito estudioso. Certamente entraria na faculdade aos dezoito. Tanto que, aos dezessete, passou em segundo lugar para Psicologia.

Apesar de não saber dirigir, Olegário Tristeza, seu pai, havia lhe dado um carro e uma viagem para o litoral com tudo pago. Ele perguntara ao filho se havia alguém (deduzimos aqui que o pai perguntava-lhe sobre alguém do sexo oposto) que queria levar consigo. Não, pai, foi a resposta, Prefiro ir sozinho, completou Nico com um sorriso no canto da boca.

Essa viagem ampliara o sonho de Nicolau: suicidar-se em grande estilo. Trocaria a banheira (a mesma de seu avô) pelo mar. Aproveitou o primeiro dia de viagem como se fosse o penúltimo. Comprou sungas, bermudas, camisetas e um par de óculos de sol (nunca havia ido á praia). Chegando finalmente á beira-mar, encontrou antigas colegas do primeiro grau. Não, elas não se lembram de mim, pensou ele, enquanto tranqüilamente se sentava perto das três meninas. Carla e Mayara admiravam o mar (ou algum menino que passava por ali) quando Manoela, que se sentava de costas para as outras duas, notara que conhecia aquele menino loiro de óculos escuros de algum lugar. Após quatro (ou cinco) segundos de reflexão, cutucou Carla:

-Ei, aquele ali não é o Vesgo?
-Quem
-O Nicolau, lembra?
-Aonde?
-Ali, ó.
-Atrás do loirinho?
-Não, o loirinho! Ele é o Nico!

Carla chamou Mayara. Esta, muito mais atenta, percebeu rapidamente que o garoto à sua frente era mesmo o Nicolau. O Vesgo!!! Será que ele continua vesgo, perguntou Mayara. As meninas decidiram ir lá falar com ele, sendo ele o Nicolau ou não. Na sorte, decidiram que Carla iria até lá chamá-lo.

-Oi!
-Oi...
-Nicolau?
-Oi...
-Oi, lembra de mim?
-Carla.
-Nossa, guri, como tu mudou!
-Pôxa, obrigado...
-Lembra da May e da Manu?
-Sim, sim, claro.
-Elas tão ali, ó.

Naquele momento, as meninas acenavam para ele. Elas, as mesmas que não se importavam com a sua existência sete anos antes, a não ser para falar mal do seu estrabismo ou do seu sobrepeso. Carla, acompanhada do antigo colega, voltou para o lugar onde as meninas estavam. Ele ainda não havia tirado os óculos escuros, e também ainda não havia se lembrado de que, nos seus onze-ou-doze anos era apaixonado por Carla. Os quatro ex-colegas conversaram muito, Nicolau se esforçava para ser sociável, e as meninas se esforçavam para chamar a sua atenção. Às sete horas, já sem óculos escuros, mostrando seus bonitos olhos azuis não-estrábicos, Nicolau se despediu das novas amigas, não sem antes marcar outra reunião, no mesmo lugar e no mesmo horário, para mais conversas e talvez uma cerveja.

No outro dia, Nicolau tinha planos. Vou ao mar, dizia em voz alta olhando para a praia da sacada do hotel, E não volto. Pagou os dois dias no hotel, e já deixou adiantado o pagamento dos cinco dias restantes da semana (Afinal, o hotel não tem culpa de nada, raciocina ele). Escreveu uma carta, e deixou sobre a cama do seu quarto, o destino (ou a camareira) que se encarregasse de levá-la ao seu pai. Na carta, agradecia por tudo, e pedia desculpas. O pai também não era culpado.

Às quatro da tarde, viu suas novas-velhas amigas sentadas na mesma toalha de ontem ("À direita da guarita 147, não esquece"), conversando animadamente. Apenas Carla notou sua chegada. Durante uma hora, conversavam sobre tudo: Tem visto alguém, Não, E a faculdade, Passei esse ano, Pra quê, Psico, Legal, É, Parabéns, Obrigado, Tem Orkut, Msn, Não, não me interesso muito, Pôxa, todo mundo tem, Pois é, eu não, Pois é.

Manuela e Mayara inventaram qualquer desculpa ("Cadê aquele cara que vendia canga?") e deixaram Carla e Nico a sós. Para não transformarmos este conto em novela ou romance, imaginem o óbvio das conversas que precedem o primeiro beijo. Foi o que aconteceu. Provavelmente o 30º beijo dela. O primeiro dele. Quando as meninas voltaram, Nicolau se lembrou do porquê de ter vindo à praia. Ir ao mar, não voltar, essa história toda, E agora, o que eu faço.

Nico não abandonaria seus planos. Disse que ia ao mar e já voltava, que desde que chegou na praia ainda não dera um mergulho sequer. As meninas não sabiam que, além do seu primeiro, Nicolau também desejava que este fosse o seu último mergulho.

Em direção ao mar, Nicolau tinha muitas dúvidas na cabeça. Com água nas canelas, olhou para trás: Carla o acompanhava com os olhos enquanto as outras duas amigas covnersavam sobre qualquer coisa desimportante, como qualquer coisa que se conversa quando se é adolescente. Carla também não tinha culpa de nada. Manuela e Mayara também não. Porquê fazer isso, perguntava-se Nicolau. Por causa da minha infância? Da minha solidão? Do meu destino? Ele é o culpado! O destino me trouxe aqui, me fez sofrer quando criança. A água passava dos joelhos. O destino... mas o destino também me trouxe a Carla. Ela era só um amor de infância, um amor tolo, infantil... mas não seria todo amor infantil? A água alcançava a cintura de Nico, e o repuxo aumentara consideravelmente. Aumentaram também suas dúvidas. E o meu pai? E a faculdade? É uma nova vida que se abre agora, parece até que o destino resolveu quitar suas dívidas, nada explica essa maré de coisas boas na minha vida! Falando em maré, a água já estava no ombro, e Nico sentia que, se tivesse que voltar, teria que ser agora, do contrário não teria forças para tal, já que também não sabia nadar. E o meu avô? O que pensaria? Nico nunca havia pesquisado a morte do avô. Mal sabia ele até este momento que o avô não se suicidara, que o rádio na banheira fora um acidente. E se ele não se matou, pensava ele, tardiamente. A água chegava ao pescoço. Não havia mais saída. Nicolau lutava contra o mar e tentava chamar a atenção do salva-vidas. Na ponta dos pés, ainda conseguiu avistar as meninas na areia. Começou a sacudir os braços, pedir por socorro, definitivamente se arrependera.

Carla, na beira da praia, acenava de volta para Nico, e conversava com as amigas sobre outro menino de óculos escuros que acabara de passar por ali.

04/12/2007

(sem título)


Não chega no que se escolhe
Não admite o que se comprova
E nega o que compreende

Nada importa o que confessa
Nem domina o que compensa
Nem define o que defende

Morre, e não se encontra.

13/11/2007

Separação

- Carlos?
- Macedo! Nossa, que bom te ver, cara!
- Mas por onde você andava, Carlos? Nunca mais te vi por esses lados...
- Pois é, aconteceram alguns problemas...
- O quê, Carlos?
- Bobagem, Macedo...
- Não, fala. Pode falar, que foi?
- Não, deixa quieto, vamos tomar uma cerveja e relembrar o passado que vale mais a pena...
- Ih, Carlão... Vamos então, mas diz o que houve.
- ... Eu me separei, cara.
- Ah não!
- É... Anos de...
- Não, espera. Já sei tudo. Aquela vagab...
- Quê? Não, peraí...
- Peraí não, Carlão. Agora que vocês se separaram, eu já posso te contar. Afinal, somos amigos, né?
- Ô, desde o colégio.
- Então, Carlão! Vai por mim, ela não valia nada!
- Como assim? Você tá falando da minha...
- É, da tua ex! Esquece ela, Carlos. O que mais tem é mulher por aí, sobrando.
- Não, não é bem assim, Ma...
- Cedo ou tarde, ia acontecer, Carlos. As mulheres só pensam no dinheiro. E convenhamos, competir com o Almeida, diretor de empresa...
- O Almeida, meu vizinho?
- É, aquele da casa com piscina. Nossa, pensando bem foi bem melhor que vocês se separaram, a Claudinha e o Almeida se merecem.
- Mas a Claud...
- É, Carlos. É a vida. Se você quer a minha opinião, eu acredito que o amor foi inventado pelo Roberto Marinho pra ganhar dinheiro com novela.
- Acho que você não ent...
- É, o amor não existe. Não existe. Pode ter sido uma invenção da mídia fonográfica. O que mais tem aí é canção de amor. E de dor de corno então...
- Corno?
- Ah, Carlos, nós somos amigos de longa data, e agora que vocês não estão mais juntos eu precisava te dizer o que metade da rua já sabia e a outra metade desconfiava.
- ...Oi?
- Oi, Carlos. Senta. Garçom, uma cerveja. Que foi, que você tá me olhando com essa cara, Carlos?
- Fala.
- O quê? Do Almeida?
- Que que tem o Almeida?
- É, quando a firma de vocês trocou de escritório e alugou uma sala longe do Centro.
- Sei.
- Então... você chegava mais tarde em casa, e o Almeida...bom, você sabe o resto.
- Eu não sei.
- É, eu sei que é difícil aceitar, Carlos, mas era verdade. A Claudinha não vale nada. Como você demorava mais pra chegar em casa, ela tinha mais tempo...digamos, disponível. Aliás, são 4 da tarde... Não era pra você estar com o seu sócio lá na firma?
- Macedo.
- Quê?
- Eu me separei do meu sócio, cara.

22/10/2007

Engano


Acordou e fez um café. Morava sozinho havia dois meses e ainda não se acostumara com a solidão obrigatória, que o deixava sem saída. Ligou a tv, e depois o computador. Colocou o Chico Buarque pra cantar na vitrola e desligou a tv. Olhou pela janela, observou o movimento dos carros e quase jogou o café que bebia de volta na xícara, tamanho o susto que levou quando a viu na frente da casa dele, num telefone público. Ela olhava pra cima, tentando encontrar alguém, e ele desconfiava de que esse alguém estava olhando pra ela, nesse exato momento, de pijamas, xícara de café na mão, com fundo musical de Chico Buarque. "Será que ela quer falar comigo? Não, deve ser coincidência...", ele pensava. Mas parou de pensar, porque quando o telefone começou a tocar, sua xícara quase caiu no chão.

Deixou o café sobre a mesa, tirou a agulha do Chico e ficou encarando o telefone. Correu pra janela, lá estava ela. Olhando pra cima. Ele olhou pro relógio, depois pro telefone, depois pra xícara de café sobre a mesa. Bebeu o último gole, desligou o computador, uma rápida olhada pela janela e foi dormir de novo."Não, não deve ser..."

3 andares abaixo, ela desistia.